Fenômeno aos 19, João Gomes já tem cachê que chega a R$ 400 mil e diz que ficha não caiu: ‘Será que sou eu?’

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Jornal Extra:Há 50 anos, Belchior ganhava um festival estudantil de música com “Na Hora do Almoço”. A letra, um grito imaginário de socorro de um jovem diante do silêncio de uma família à mesa, com seus segredos e suas mazelas, tem preenchido alguns momentos reflexivos de João Gomes na estrada. O atual fenômeno do piseiro, número 1 nas plataformas digitais, talvez nem imaginasse que os versos que cita, cantando (“minha avó me chama. É hora do almoço”), teriam mais em comum com sua vida do que a parte que entoa com seu vozeirão grave, que parece carregar junto da novidade que ela representa no cenário do forró, uma melancolia, algo meio empoeirado, que nem terra seca.

“Choro quando escuto essa música… Belchior, de forma geral. Não que eu esteja triste, não. Pelo contrário. Estou muito feliz. Feliz de verdade com tudo que estamos conquistando. Mas são momentos em que lembro o que passei para chegar até aqui, da família, e passa um filme”, observa ele, que virou fã do cantor cearense através dos rappers que escuta.

Galegão é o nome do veículo. Embora João agora já tenha um segundo, já que o primeiro ficou pequeno para as 26 pessoas que estão no palco com ele. E se tem uma coisa que ele não abre mão é de ter os seus nas mesmas condições que ele. “Não faço nada sozinh, meus amigos estão comigo. Começamos juntos, vivemos o ruim juntos, e agora estamos vivendo o que sonhamos. Minha responsabilidade é muito grande. Com eles, com a família deles, com o trabalho”, enumera o cantor, que ainda sendo um garoto carrega a maturidade de quem já viveu demais.

Talvez a razão esteja na infância. Os pais se separam quando ele tinha 2 anos. A mãe trabalhava fora, e João ficava só. Com seus poucos brinquedos e o rádio ligado. Tornou-se circunspecto. O pai tinha uma barbearia na frente da casa da avó. Quando João estava ali, ficava calado. “Meu pai dizia que ali tinha todo tipo de gente. Então, ele falava para eu ficar quetinho, ouvir e não interagir com os clientes. E eu ficava horas lá, só ouvindo. Acho que isso me tornou alguém mais tranquilo, que observa muito”, justifica.

Quando estava na barbearia, recebia R$ 10 por dia para varrer o chão. O pai nunca quis que João tivesse a mesma profissão que o avô teve, repetindo assim uma tradição, quase sina familiar. A avó paterna, com quem João morou a partir dos 14 anos, tinha medo de o neto quebrar a cara. A mãe idem. Pedia para ele estudar. “Meu plano A sempre foi trabalhar com agricultura. Passei no Instituto Federal do Sertão para cursar Agropecuária e meu futuro seria na roça”, diz.

A terra, porém, não será abandonada. João quer, no futuro, “ter uma roça para viver como o avô”. Até lá, espera pisar em todos os palcos que puder. Agenda lotada. Segundo fontes do mercado, os shows que começaram em R$ 80 mil, hoje já chegam a R$ 400 mil dependendo da data.

João não se empolga a falar de dinheiro. “Se eu quisesse hoje eu poderia ter uma picape, um carrão. Mas para quê? Estou na estrada e não ia poder dirigir. Podia comprar um casarão, com piscina e tal, mas nem iria conseguir dormir um dia nela, pois passaria o mês viajando. Sou muito pé no chão”, garante: “Prefiro arrumar a casa da vó, levantar a laje da casa do meu pai…”.

A simplicidade de João está até nas roupas com as quais se apresenta. “Uma botina de vaquejada que não tiro do pé, uma calça, uma camisa polo e um boné”, descreve. Boné, inclusive, virou marca registrada. Tem um monte, mas só usa dois. E alguns até com propaganda de um comércio local de onde ele esteja.

Aplaudido por Neymar, Hulk, Ivete Sangalo e Wesley Safadão, ídolos da sua infância, João jura que não se deslumbra. Tímido, coloca nas músicas românticas que faz a saudade do que ainda não viveu. Namorada ele garante que não tem. “Me apaixono na mesma velocidade que desapaixono. Aí, vira música”, explica, maroto.

A cada dez frases que diz com seu sotaque carregado, pelo menos uma tem Deus no meio. Criado no catolicismo, cantor de coral, João não tem só nome de santo. Ele é dono, afirma, de uma fé inabalável. “Não sei explicar. Não é por causa de religião. Apesar de ter sido crismado e batizado, é algo que sempre veio de dentro. Tem gente que vai à igreja e não tem a mesma fé. Não que eu tenha mais que os outros, não. Mas nunca deixo de agradecer a Deus por tudo o que vem me acontecendo, por ter estado comigo nos piores momentos, por ter me perdoado quando fui alguém ruim. Eu sinto necessidade dessa troca com Ele”, argumenta.

Na última quinta-feira, pela manhã, no interior do Pará, onde fez um show lotado na noite anterior, João Gomes tomava banho quando ocorreu uma dessas “trocas”: “A água caindo assim e de repente era como se eu olhasse pra mim mesmo, sem acreditar no que estou vivendo. Me perguntava: ‘Será que sou eu mesmo?’. Até outro dia eu não era ninguém, e agora… Só pode ser Deus”. Ainda lembrando Belchior, o verso de “Apenas um Rapaz Latino Americano” sintetiza bem a história de João Gomes: “Mas trago de cabeça uma canção do rádio em que um antigo compositor baiano me dizia: Tudo é divino, tudo é maravilhoso”. Por portal PE10

 

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